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✨ O surto ✨

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Não consigo lembrar o motivo que me fez assistir Fleabag pela primeira vez. É provável que tenha sido alguma coisa relacionada ao Padre Gato (sou humana), mas também é possível que tenha sido qualquer review interessante sobre outros temas que passou pelos meus olhos enquanto eu rolava a timeline do twitter. Todo mundo estava falando sobre a série, todo mundo escreveu sobre a série, e eu não sou a melhor pessoa pra acompanhar o hype  de nada, mas era efetivamente muita gente  falando sobre o mesmo assunto e, no fim das contas, a Amazon Prime já estava sendo debitada do meu cartão de qualquer jeito... Este não é um texto sobre Fleabag, sobretudo porque a Clara já disse o que havia pra ser dito da melhor coisa da série (o Padre Gato). Este é um texto que passa por outro tipo de relação que a série aborda: a da mulher com o seu cabelo. Talvez a Claire seja a minha personagem favorita de Fleabag, feitas as devidas ressalvas. Ela é uma mulher impossível, eu sei, mas me chama atenção que el

Saudade de mundo

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Dia desses me descobri com uma inexplicável saudade de andar de ônibus. Das muitas coisas que a quarentena foi tirando de mim, essa talvez seja a que mais mudou a minha dinâmica com a vida lá fora. Estar há nove meses sem beber um bom drink, ter que pedir delivery sempre que quero comer alguma coisa diferente ou só me comunicar por telas foram mudanças com as quais me habituei com certa facilidade, mas a ideia de ter que andar sempre de carro porque esse é o único jeito de não sentir medo... Essa me quebrou de verdade. Tentei elaborar essa saudade de um monte de jeitos: falando sobre Paterson , argumentando que aprendi a romantizar a cidade, explicando a história por trás do meu andar de ônibus. Nada disso parecia ser exatamente o que eu queria dizer. Mas quando voltei ao instagram e olhei pela milésima vez todas as fotos que tirei enquanto estava dentro do ônibus, os argumentos pareceram se encaixar melhor na minha cabeça. Não é que seja uma saudade do ônibus , embora seja também isso

Morte e metáfora

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Quando meu avô faleceu, em setembro, eu não soube muito bem como reagir. Nunca fui próxima da minha família paterna, com exceção desse avô, a quem visitei poucas vezes nos últimos anos e que não vi em nenhum momento durante a pandemia. Meu pai mantinha contato com uma frequência muito superior à minha e trazia as notícias sem muitos detalhes: "Papai já tá bem velhinho" ou "Papai demorou pra me reconhecer" ou "Tá a mesma coisa de sempre, deitado lá, vendo a televisão dele". Eu sabia que era uma questão de tempo até ele ir embora – no último ano, ele havia quebrado uma perna, tido problemas com machucados que não queriam cicatrizar, passado por uma cirugia. Ele já tinha mais de noventa anos e, na minha família, chegar a essa idade é o equivalente a não morrer nunca mais, mas a gente sabe que, em algum momento, todo mundo morre. E aí um dia a gente soube que ele tinha ido pro CTI com pneumonia. O processo foi todo um pouco esquisito. Quando minha mãe me aviso

Um post good vibes, pra variar

Comentei esses dias no twitter esses dias que ando um pouco cansada de ver correntes, fios e listas sobre coisas que a gente teria feito em 2020, não fosse o fim do mundo. Eu sei, todo mundo tinha planos. Eu sei, ninguém aguenta mais ficar em casa, ler notícias catastróficas, ver as mesmas coisas todo dia e ficar triste sempre que as memórias do Facebook envolvem qualquer coisa que acontecia do lado de fora – de bares com amigos ao trânsito da volta pra casa. Em geral, sou muito a favor de remoer o sentimento de tristeza e, se tratando do fim do mundo, não acho que a gente tenha que simplesmente aceitar e seguir em frente (seguir pra onde?!). Por outro lado, esse lembrete constante de que existiu uma vida lá fora e agora não existe mais acaba me deixando com um gosto amargo na boca e uma inclinação irresponsável a simplesmente tacar o foda-se.  Pensando nisso, decidi tentar elaborar uma lista de coisas que eu fiz apesar  da quarentena. Talvez pareça uma atitude tilelê-good-vibes-vamos-

Notas sobre o olhar do outro

Já faz algum tempo, tento escrever sobre um sentimento específico, para o qual pareço ser incapaz de encontrar as palavras certas. Rascunhei muitos textos, tentei outras formas de expressão, puxei conversas casuais sobre o tema, mas ele sempre parece escapar, por uma fenda ou rachadura que não vejo, se encolhendo dentro da minha cabeça em algum lugar inalcançável. Este texto é mais uma tentativa de senão dominá-lo, ao menos me aproximar dele. Ando pensando e falando sobre o impacto que o olhar do outro tem em mim. Não é um tema original, posto que estamos todos sob a mesma luz contemporânea de visualizações, curtidas e aprovações externas, mas ainda é um assunto que me interessa enquanto indivíduo cujo maior objetivo de vida parece ser sempre o de pertencer a algum lugar. (Essa é uma coisa grande pra se dizer assim, de repente, eu sei. Vou deixá-la assim.) O olhar do outro é o meu número de seguidores, é a minha carreira desaplaudida como escritora para as mesmas três pessoas, é a quan

Breves comentários sobre comprar uma cama

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Quando criei este blog de mentirinha, parte de mim queria contribuir com o movimento de volta pra uma internet menos horrível e tentava acreditar que montar a minha barraca no Blogger outra vez, depois de tantos anos, bastaria pra me convencer de que as coisas poderiam, pelo menos em parte, ser como eram antes, quando eu tinha quinze anos e uma série de posts recentes nos meus blogs favoritos pra consumir ao longo da noite. Este lugar virtual nasceu pra ser, portanto, mais do que um simples espaço pra escrever e ponto; também funciona, pelo menos dentro da minha cabeça, como uma espécie de manifesto (insignificante, talvez) pelo retorno de uma internet como um espaço seguro pra gente simplesmente  falar sobre coisas , sem a pressão de ter todas as respostas sobre elas. Pensando nisso há um tempinho, desisti de ter um blog que não fosse assim tão pessoal (o que justifica o post de algumas semanas atrás) e aceitei que, às vezes, eu conseguiria ser engraçadinha e montar uma crônica divert

Do lado de fora

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Não lembro direito da minha infância, mas lembro de não ter muitos problemas em ser comunicativa. Fui uma criança emburrada pros adultos que conviviam comigo, mas também fui faladeira e gostava de ser o centro das atenções, tanto em casa, quanto no meu grupinho de amigas. Além disso, fui terrivelmente influenciada pelas personalidades erradas nos filmes infantis, de modo que não conseguia enxergar o enorme abismo social e financeiro que me impedia de efetivamente levar a vida de todas as patricinhas da televisão e tentava ser como elas mesmo assim – o que, é claro, não trouxe bons resultados. Durante aquela fase horrível de transição entre o universo infantil e o universo assertivo e "adulto" dos adolescentes, aconteceu também uma transição espacial (mudei pra outra escola) e, por causa dela, meu lado comunicativo perdeu espaço pro meu lado ansioso. (Acho, na verdade, que as duas coisas sempre estiveram muito atreladas, tanto que até hoje costumo falar muito quando tô em situ