sábado, 28 de novembro de 2020

Saudade de mundo

Dia desses me descobri com uma inexplicável saudade de andar de ônibus. Das muitas coisas que a quarentena foi tirando de mim, essa talvez seja a que mais mudou a minha dinâmica com a vida lá fora. Estar há nove meses sem beber um bom drink, ter que pedir delivery sempre que quero comer alguma coisa diferente ou só me comunicar por telas foram mudanças com as quais me habituei com certa facilidade, mas a ideia de ter que andar sempre de carro porque esse é o único jeito de não sentir medo... Essa me quebrou de verdade.

Tentei elaborar essa saudade de um monte de jeitos: falando sobre Paterson, argumentando que aprendi a romantizar a cidade, explicando a história por trás do meu andar de ônibus. Nada disso parecia ser exatamente o que eu queria dizer. Mas quando voltei ao instagram e olhei pela milésima vez todas as fotos que tirei enquanto estava dentro do ônibus, os argumentos pareceram se encaixar melhor na minha cabeça. Não é que seja uma saudade do ônibus, embora seja também isso; é uma saudade do mundo.

Ponte Rio-Niterói, 2018.

Pensando na minha trajetória como passageira, o ônibus foi a primeira liberdade que conquistei: meus pais saíam cedo pra trabalhar e, quando parei de estudar perto de casa, me levar pra escola virou um problema na nossa rotina e a van escolar não estava sendo a melhor saída. Então eu recebi permissão para começar a ir de ônibus (eu devia ter catorze anos), sempre com cuidado, sempre com um milhão de avisos. E fui: mochila nas costas, fone de ouvido. Eu e Deus na linha 515 - Niterói/Mutuá.

Quando decidi que a minha universidade dos sonhos era a USP UFRJ, em parte foi porque queria estar longe. Não queria ter a mesma rotina que tinha há seis anos, não queria ver as mesmas pessoas e os mesmos lugares. Eu queria atravessar a ponte, estar no Rio de Janeiro, saber o que acontecia do outro lado. E essa decisão veio acompanhada da responsabilidade de passar a pegar dois transportes, não só pra ter aulas, mas, depois de alguns meses, pra basicamente tudo o que eu queria fazer: o lado de lá da poça¹, pra mim, era melhor. E andar de ônibus contribuiu muito pra que eu o explorasse direito.

Foi de ônibus que conheci mais de perto as ruas do Centro e todos aqueles prédios históricos intercalados com prédios feitos de espelho; foi de ônibus que passei debaixo dos arcos da Lapa; foi de ônibus que andei a orla do Flamengo, de Botafogo e de Copacabana; foi de ônibus que conheci a minha universidade inteira; foi de ônibus que cheguei na minha primeira baladinha; foi de ônibus que visitei teatros na Lagoa; foi de ônibus que fui ver a minha banda favorita tocar. E, depois, todos esses trajetos foram feitos à pé, comigo entrando nos sebos e nos prédios e nos museus, adiantando o passo porque estava com medo de ser assaltada no meio da Cinelândia, pegando o caminho mais longo porque não queria chegar no trabalho tão cedo, descobrindo prédios nos quais gostaria de morar.

Também foi graças ao ônibus que consegui explorar outros mundos, porque aprendi a ler em movimento e sabia que podia me desligar completamente do que estava acontecendo do lado de fora da janela. Terminei uma quantidade ridícula de livros dentro do transporte público, fosse em pé, fosse sentada; também terminei um monte de releituras para provas, listas de exercícios e uma ou duas revisões com prazo apertado. Tive, durante alguns anos, uma série de textos-cartas endereçadas a outros passageiros. E fotografei muita gente, muitos carros, muitos céus de fim de tarde que acabaram me permitindo escrever, inventar, imaginar. De certa forma, estar no ônibus também me deu essa outra liberdade.

Vivi uma parte grande das minhas aventuras juvenis dentro de um ônibus, fosse a caminho de algum lugar, fosse voltando pra casa. Tenho memórias muito queridas que se intercalam com os trajetos percorridos antes ou depois delas, e, às vezes, quando penso na minha curtíssima existência dentro de um mundo mais ou menos adulto, mais ou menos moderno, mais ou menos parte da cidade grande, penso também em como o percurso nem sempre asfaltado que fiz pra (literalmente) chegar até ali influenciou os meus modos de aproveitar os espaços. 

BR101, 2017.

Comecei a ler How to do nothing há alguns dias porque alguém no twitter falou de uma super promoção em que o e-book estava saindo por cinco reais. Não estou super avançada na leitura, mas a Jenny Odell tem um jeito diferente de me puxar pelo pé e me deixar quietinha, pensando. Logo no começo do livro, ela comenta sobre um espaço verde que existe perto da sua casa, pra onde ela ia sempre que se sentia ansiosa. No contexto das eleições presidenciais de 2016, esses momentos ficaram mais constantes, e o tempo que ela passava ali era o tempo que ela tinha pra não consumir notícias e não participar ativamente do mundo do lado de fora. Era um tempo só dela.

Eu nunca fui uma pessoa que simplesmente saía e, antes da quarentena, estava sempre comentando como gostaria de sair mais. Conhecer mais coisas, viajar pra mais lugares, comer em outros restaurantes etc. De toda forma, eu era uma pessoa que estava constantemente em trânsito – porque moro longe de tudo e uma simples ida ao shopping é um trajeto considerável. Aqui no bairro e nos bairros vizinhos não existem áreas verdes, cafés ou espaços nos quais eu podia "me desligar", mas, quando paro pra pensar, acho que o ônibus cumpria essa função de forma mais ou menos satisfatória.

Eu não fico no celular quando estou no ônibus. Eu também não preciso falar com ninguém, nem prestar tanta atenção no que está acontecendo lá fora. Posso deixar a minha mente vagar enquanto olho os prédios e as luzes e o céu e as outras pessoas lá fora; posso ir criando histórias, montando listas de pendências, lembrando de cenas específicas; posso só ouvir música; posso cochilar; posso ler. Estar no ônibus é, em geral, o meu tempo de não fazer nada – no sentido político da coisa, mesmo –, de não obedecer às regras de um sistema que me obriga a estar ali dentro, mas não me obriga a produzir enquanto estou ali dentro. E, de um jeito estranho, estar no ônibus também é o meu jeito de me reconectar com o que eu deixo quieto dentro de mim.

Cidade Universitária (UFRJ), 2016.

Voltei pro estágio da quarentena em que não consigo fazer nada além de pensar em quando isso vai finalmente acabar. Sei que nunca passamos da primeira onda de verdade, mas, com os números subindo novamente, minha cabeça entrou em parafuso outra vez e as obrigações que ignorei em março já não posso ignorar agora. Esse estado constante de preocupação, caos e solidão contribui muito para que o meu cansaço natural pareça cinquenta vezes maior. Só Deus sabe como tem andado o meu humor nessas últimas semanas.

Geralmente, esse é o tipo de situação em que aceito me dar um descanso real: vou ao cinema, como cookies gostosos e pago caro em um potinho de sorvete, entro numa livraria, tomo um café difente, caminho um pouquinho, tiro foto de qualquer coisa, espero dar a hora de voltar pra casa em um ônibus que não vai estar lotado. Hoje, não posso – não consigo – fazer nenhuma dessas coisas. Tenho saudade de estar lá fora, de estar em trânsito, não tanto pelos bancos revestidos de um material azul meio plástico, pelos motoristas que nem sempre respondem meu bom dia, pelos engarrafamentos, pelas pessoas sem noção de espaço pessoal; é por todas as outras coisas que esse espaço me proporciona: encontrar gente que amo, ver lugares, sentir uma brisa gostosinha no rosto, agradecer pequenas gentilezas, colocar os pés pro alto, sentir que não estou confinada a um lugar só. 

No fim do ano passado, fiz a maior viagem de ônibus da minha vida: foram aproximadamente seis horas do Rio de Janeiro até uma cidadezinha no interior de Minas Gerais. O trajeto em si não tem nada demais, mas a paisagem é muito, muito bonita. Lembro que comecei a viagem de manhã, então dormi, mas, lá pela hora do almoço, estava em um ponto da estrada em que só existia verde, montanha, uma casinha ou outra perdida no meio de uma imensidão de pasto. E eu olhava tudo aquilo e ficava efetivamente tranquila, como se desse pra receber uma dose de fé de que o mundo não merece acabar ainda. 

Não sei quando vou ter coragem de entrar num ônibus de novo, mas, até lá, deixo registrada a falta que faz – sobretudo agora – e sigo olhando as fotos.

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¹A Poça, também conhecida como Baía de Guanabara.
Todas as fotos deste post são minhas.

domingo, 1 de novembro de 2020

Morte e metáfora

Quando meu avô faleceu, em setembro, eu não soube muito bem como reagir. Nunca fui próxima da minha família paterna, com exceção desse avô, a quem visitei poucas vezes nos últimos anos e que não vi em nenhum momento durante a pandemia. Meu pai mantinha contato com uma frequência muito superior à minha e trazia as notícias sem muitos detalhes: "Papai já tá bem velhinho" ou "Papai demorou pra me reconhecer" ou "Tá a mesma coisa de sempre, deitado lá, vendo a televisão dele". Eu sabia que era uma questão de tempo até ele ir embora – no último ano, ele havia quebrado uma perna, tido problemas com machucados que não queriam cicatrizar, passado por uma cirugia. Ele já tinha mais de noventa anos e, na minha família, chegar a essa idade é o equivalente a não morrer nunca mais, mas a gente sabe que, em algum momento, todo mundo morre. E aí um dia a gente soube que ele tinha ido pro CTI com pneumonia.

O processo foi todo um pouco esquisito. Quando minha mãe me avisou, eu sabia que era só uma questão de paciência, então me recolhi um pouquinho, pedi e mandei boas energias pra ele ter uma passagem tranquila e esperei. Dois dias depois, ele foi embora de verdade – aparentemente, sem complicações e sem dor. Meus pais diziam que ele, conforme envelhecia, parecia cada vez mais com um passarinho: pequeno, magrinho, narigudo, sem dentes. Eu gosto de pensar nele com o chapéu panamá e a camisa de botão, aparecendo de surpresa numa festa de aniversário da minha mãe – ele, que nunca saía de casa. Gosto de lembrar como ele levantava da cama e dava abraços em todo mundo, quando a gente chegava pra dizer oi. Gosto de lembrar que ele nunca me fez sentir fora do lugar, mesmo em um espaço onde todas as pessoas faziam questão de reforçar como a minha família era deslocada.

Depois que a notícia veio, foi como se todos os sentimentos confusos saíssem de dentro da minha cabeça. Tive terapia no mesmo dia e não soube direito como organizar as palavras, mas comentei que era como se eu perdesse uma família inteira de uma vez – sem meu avô, não tenho motivos pra ir até lá, e então era mesmo como se fosse um luto não por causa de uma pessoa, mas de quinze. Conversando com o meu namorado uns dias mais tarde, enfim consegui entender parte da minha angústia: era verdade que eu não tinha mais o meu avô, mas o que tornava a perda tão estranha era que ela equivalia a uma perda de mim mesma. "Hoje eu sou só 50% neta", eu escrevi em uma mensagem.

No mesmo dia em que soube que meu avô havia falecido, tinha lido um poema que dizia: "A morte é propriedade dos vivos,/ aquele que morreu já não vive nem está morto./ O processo antigo está terminado e inicia-se o novo:/ movimento mecânico, som, luz, calor, eletricidade, decomposição, combinação, etc." Lembrei do Gilberto Gil cantando "a morte já é depois que eu deixar de respirar/ morrer ainda é aqui", e fiquei com isso ecoando. Morrer é mesmo uma coisa de quem está vivo. Escrevi sobre isso no diário – "Morrer é uma presença muda das coisas", e depois "é tudo vazio – essa imagem de abismo e ruína e silêncio", e depois "Quando você perde seus avós, você deixa de ser neto? Talvez você deixe. É assim que funciona a linguagem", e então: "parece que o luto é a gente morrendo também, só que com consciência".

 


Muito antes de tudo isso, em uma das minhas sessões de terapia, comentei que era esquisito saber que, depois do mestrado, eu deixaria de ser aluna. Como se eu perdesse uma parte de quem eu sou há mais de vinte anos; como se, de repente, eu tivesse que arranjar uma outra identidade. Ser aluna foi um pedaço fundamental da minha personalidade durante todo esse tempo e a ideia de que ele ia deixar de existir talvez fosse uma das razões pelas quais eu continuava insistindo em um caminho que, hoje, já não parecia fazer sentido. Minha psicóloga disse que sim, eu deixava isso de lado, mas então eu virava outra coisa. E eu respondi: sim – mas o quê?

Quando tive uma crise de identidade parecida com a ideia de ser leitora, o que eu criei foi o leitora de mentirinha – um espaço em que eu podia elaborar (dentro da minha cabeça, mas também em um espaço físico) o que significava ainda fazer o que um dia me definiu como pessoa. Eu fui "a garota que lê" durante um pedaço enorme da minha vida e, quando entrei na Letras, estava cercada de outras meninas que, apesar de diferentes entre si, também receberam esse rótulo e também se definiam por meio dele. O processo de deixar de ser leitora não era um abandono efetivo da prática de ler (continuo lendo), mas do que o rótulo significava pra mim e de como ele moldava um pedaço da minha visão sobre mim mesma. Era também um processo de tentar me entender dentro desse mundo de livros e descobrir se ele era um mundo de trabalho, de prazer, de conexão ou do quê. Ainda estou no meio dele. Ainda estou deixando de ser leitora e virando uma leitora de mentirinha e vendo até onde isso me leva. E só recentemente entendi que esse era um processo parecido com o luto.

Quando eu terminar o mestrado, eu deixo de ser aluna. Viro 100% menos aluna. Viro outra coisa – uma coisa misteriosa, desconhecida, que eu só vou descobrir no momento em que virar. Eu entendo que não é uma morte definitiva de parte de mim – posso voltar a ser aluna a qualquer momento –, mas é uma ressignificação desse pedaço de quem eu fui por tantos anos, e talvez por isso seja tão assustador. É uma abertura para uma realidade tão nova, tão diferente, tão cheia de possibilidades – e ela me deixa um pouco estatelada, como se eu abrisse a janela e não tivesse a rua do outro lado, mas esse universo inteiro. Como se eu estivesse presa dentro de uma daquelas ilustrações feitas em aquarela.



No tarô, o meu arcano maior favorito é a Estrela, mas admito que sempre esboço um sorrisinho quando, no meio de um jogo, puxo a carta da Morte. O tarô me tranquiliza e me anima porque é uma leitura de símbolos que variam, ainda que estejam ali, iguais, todas as vezes. E a Morte pode significar várias coisas, em vários cenários, mas, no fundo, ela é sempre a mesma – uma transformação profunda, um recomeço.

Quando ainda estava começando a ler o baralho, uma amiga comentou que achava interessante como a gente podia enxergar o tarô como um exemplo da Jornada do Herói. Eu já sabia que os arcanos maiores contavam uma história, mas não tinha me ocorrido que ela se adaptava aos moldes que o Campbell se deu ao trabalho de identificar, e essa percepção moldou a minha forma de ler as cartas, mas também contribuiu para que o processo de tentar dar linearidade à minha vida ficasse um pouco menos intenso: por mais que o tarô seja uma narrativa, eu não puxo as cartas uma depois da outra. Eu puxo as cartas embaralhadas e tento interpretar o caos.

Talvez a minha parte favorita do tarô seja justamente essa consulta ao acaso. Da mesma forma que a narradora de Maternidade consulta a sua versão adaptada do I-Ching, ou que, bem antes disso, Lyra consultava o aletiômetro, ou, apenas um pouco antes, que a personagem de Sob os ossos dos mortos começava o seu livro dizendo "Se tivesse examinado nas Efemérides o que aconteceria no céu naquela noite, nem me deitaria para dormir" – eu leio o tarô sempre que preciso de um pouco mais de perguntas, embora diga pra todo mundo que as cartas são um conselho. Faço perguntas e gero novas perguntas, que geram novas respostas, que geram perguntas diferentes das iniciais; puxo uma carta atrás da outra, só pra ver o que elas mostram – um exercício de leitura de símbolos que pode parecer uma tentativa de organização, mas é um deixar-se levar pela bagunça. 



Nunca soube lidar com finais, com gente indo embora, com a sensação de que alguma coisa se encerra. Um dos motivos pelos quais sempre amei o ano novo é porque ele transforma a ideia de "fim de ano" em uma projeção para algo que vem depois, o que elimina a noção de fim. Ainda assim, cada vez mais tenho tido que aprender a lidar com essas coisas – as mortes reais e as mortes metafóricas –, porque cada vez mais percebo que os meus mecanismos para evitar o tópico já não funcionam.

Nos últimos meses, tenho pensado muito sobre quem eu sou e o que eu faço e quem eu gostaria de ser – essas questões filosóficas que vão e voltam, especialmente em um ano como 2020, especialmente no fim do ano, especialmente quando se está encerrando um ciclo. Não tenho respostas pra nenhuma dessas perguntas – não sei se acredito que existem respostas, mais do que existem tentativas. A narradora de Maternidade diz que "sempre que você não consegue achar uma resposta é porque a resposta não tem tanta importância dentro da trajetória mais ampla das coisas", e eu, que sempre acreditei que se você não consegue achar uma resposta é porque precisa formular melhor a pergunta, me vejo, hoje, inclinada a concordar com ela. Talvez não importe. Tudo é caos. A morte é uma transformação. Eu só preciso continuar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Um post good vibes, pra variar

Comentei esses dias no twitter esses dias que ando um pouco cansada de ver correntes, fios e listas sobre coisas que a gente teria feito em 2020, não fosse o fim do mundo. Eu sei, todo mundo tinha planos. Eu sei, ninguém aguenta mais ficar em casa, ler notícias catastróficas, ver as mesmas coisas todo dia e ficar triste sempre que as memórias do Facebook envolvem qualquer coisa que acontecia do lado de fora – de bares com amigos ao trânsito da volta pra casa. Em geral, sou muito a favor de remoer o sentimento de tristeza e, se tratando do fim do mundo, não acho que a gente tenha que simplesmente aceitar e seguir em frente (seguir pra onde?!). Por outro lado, esse lembrete constante de que existiu uma vida lá fora e agora não existe mais acaba me deixando com um gosto amargo na boca e uma inclinação irresponsável a simplesmente tacar o foda-se. 

Pensando nisso, decidi tentar elaborar uma lista de coisas que eu fiz apesar da quarentena. Talvez pareça uma atitude tilelê-good-vibes-vamos-olhar-para-o-lado-positivo-das-coisas, mas a verdade é que eu só não quero ficar sendo lembrada de tudo o que não conquistei em 2020. Justo eu, que ia ver duas das minhas bandas favoritas, conhecer pessoas que gosto muito, pisar em São Paulo outra vez, tomar vinho verde em Portugal. Então, se vocês me derem licença pra ser um pouco otimista, eu gostaria de deixar registradas algumas das minhas pequenas vitórias.

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1. Voltei a pintar

Talvez vocês não saibam isso sobre mim, mas eu fui uma criança extremamente inclinada a fazer merdas que envolviam tinta. Qualquer tipo de tinta. Gostaria de dizer que era a consequência imediata de ser uma criança artística, mas a verdade é que nunca soube desenhar e meu prazer inteirinho vinha da sensação gostosa do pincel cheio contra qualquer superfície. O tampo da mesa de jantar da nossa casa, por exemplo, era mármore em cima e rabiscos da Mini Amanda embaixo. Meu pai tentou segurar o meu talento me dando materiais adequados – papel –, mas eles não bastaram e depois de certo ponto foram proibidos dentro de casa. Então eu descobri os esmaltes e as sombras coloridas e a minha superfície favorita virou o meu próprio corpo, até a minha mãe decidir que também isso era matéria prima proibida e nunca mais me deixar aparecer com um vidrinho novo de uma cor bonita.

Tempo vai, tempo vem, acabei desistindo da ideia de ser uma artista abstrata incompreendida e migrei para trabalhos menos sujos. Durante a faculdade voltei a inventar moda e comprei materiais adequados para treinar aquarela, que sempre achei bonito e não sabia fazer. Deu certo, gastei todas as minhas folhas em pouco tempo e depois deixei morrer de novo, por preguiça de repor os materiais. Aí veio a quarentena.

Não é que agora eu seja uma grande artista e pinte todos os dias, mas, de quando em quando, me permito perder uma tarde inteira fazendo rabiscos que depois vou colorir com tinta ou lápis de cor. Desde que comprei um tablet, também tenho desenhado coisas bonitinhas nele, só pela diversão. É uma coisa que me tranquiliza e que tira a minha cabeça da preocupação absoluta com o fim do mundo, além de ser o único hobby que nunca tive sequer interesse em transformar num trabalho. E acaba que tem sido gostoso me ~reconectar~ com a parte de mim que não está tentando fazer nada pra ser visto. 

2. Aprendi a ficar sozinha

Que conceito, não é mesmo? Acho engraçado pensar nisso, porque ficar sozinha sempre foi uma coisa que odiei profundamente, até precisar aprender a dar conta de fazer. E quando isso aconteceu, ainda foi uma coisa que fui incluindo na minha rotina aos poucos: primeiro um cinema sozinha, depois ir comprar umas roupinhas, depois almoçar e tomar um sorvete, depois passar horas quieta em algum lugar... Enfim. Construí esse traço de personalidade com algum sacrifício, me sentindo deslocada em vários momentos. E aí, na quarentena, percebi que sinto falta de poder estar sozinha, mas acompanhada.

Mesmo com toda a privacidade que eu tenho em casa, estar sozinha é uma coisa que tem me feito muita falta, especialmente nos contextos em que eu estava sozinha no meio de um montão de pessoas. O cinema, a loja de roupas, o almoço e o sorvete, as horas no trânsito ou em silêncio na biblioteca: é isso que eu gostaria de ter de volta, o que é uma marca muito profunda de que eu efetivamente aprendi a fazer tudo isso sem me sentir esquisita comigo mesma. E ter dado esse passo significa um monte de outras coisas também, que eu era incapaz de perceber com tanta clareza antes do mundo acabar.

3. Não desisti de aprender francês

Esse eu não preciso explicar. É surpreendente que eu não tenha dito pra mim mesma que não preciso aprender essa língua dos infernos num ano em que tudo é on-line, eu tenho outras coisas pra fazer e não dá nem pra treinar a pronúncia direito. Vou só deixar rolando. Ça va. 

4. Dei conta de fazer um instagram para os meus livrinhos

Bom, esse item é também uma espécie de autopromoção. Tentei várias vezes dar conta de ter um espaço específico pra falar sobre livrinhos e tirar umas fotos bonitinhas aqui e ali. Falhei em todas elas. Mas é aquele ditado: água mole, pedra dura, etc. e tal. Agora o tal espaço – é uma conta no instagram – existe de verdade e eu nem quero morrer sempre que olho pra ele. Fiz até um cronograma, sabe? Muito blogueira, muito organizada. 

O leitora de mentirinha é uma coisa ridiculamente pequena. E é uma coisa minha – tipo pintar, tipo ficar sozinha – e que eu ainda não sei direito pra quê serve, se não pra ser um grande diário de leituras que eu organizo de um jeito focinho. Mas existe, está lá, tem cem seguidores (ai, que fofinho!!!) e é isso. Rolou.

5. Escrevi (estou escrevendo) uma dissertação

Esse talvez seja o item mais relevante da lista e o tipo de coisa que qualquer dia vai ganhar um textão próprio, e, embora ainda esteja acontecendo, resolvi colocar aqui porque de fato está acontecendo. Durante a maior parte de 2020, passei por uns maus bocados e realmente achei que não fosse dar conta de fazer essa dissertação sair. Não era nem só questão de ter que me forçar a começar a trabalhar; era efetivamente odiar tudo o que eu estava fazendo, pensando em fazer, me obrigando a fazer. Foram vários meses sombrios.

Foi em agosto (!) que outras coisas aconteceram e a escrita começou a fluir melhor. Estamos no fim de outubro e tudo o que eu tenho até agora são dois capítulos e mais um pouquinho, mas isso me deixa feliz a ponto de sentir que a minha vida faz sentido novamente. A quarentena foi uma bomba nuclear na minha carreira acadêmica, mas impressionantemente a minha dissertação foi a baratinha que sobreviveu. (Sim. Eu vou me ater a essa analogia. Eu sei.) E só por isso acho que já dá pra esboçar um sorriso. 

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Acho que, em geral, é isso. Sintam-se à vontade pra me contar as pequenas coisas que vocês também fizeram apesar da quarentena, seja tomar banho todos os dias, seja construir um foguete usando macarrão. Este é um post que já carrega o selo de aprovação da comunidade das boas energias, então a gente pode muito bem aproveitar. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Notas sobre o olhar do outro

Já faz algum tempo, tento escrever sobre um sentimento específico, para o qual pareço ser incapaz de encontrar as palavras certas. Rascunhei muitos textos, tentei outras formas de expressão, puxei conversas casuais sobre o tema, mas ele sempre parece escapar, por uma fenda ou rachadura que não vejo, se encolhendo dentro da minha cabeça em algum lugar inalcançável. Este texto é mais uma tentativa de senão dominá-lo, ao menos me aproximar dele.


Ando pensando e falando sobre o impacto que o olhar do outro tem em mim. Não é um tema original, posto que estamos todos sob a mesma luz contemporânea de visualizações, curtidas e aprovações externas, mas ainda é um assunto que me interessa enquanto indivíduo cujo maior objetivo de vida parece ser sempre o de pertencer a algum lugar. (Essa é uma coisa grande pra se dizer assim, de repente, eu sei. Vou deixá-la assim.) O olhar do outro é o meu número de seguidores, é a minha carreira desaplaudida como escritora para as mesmas três pessoas, é a quantidade de interações que o meu tweet vai ter. O olhar do outro é também esse texto – e todos os outros textos que publiquei na internet desde que comecei a fazer esse espaço de diário, lá em 2009.


Contudo, ainda mais que tudo isso, o olhar do outro é esse atravessamento que molda quem eu sou – e é exatamente esse ponto de convergência que me parece impossível de elaborar. Não sei – e imagino que ninguém saiba com certeza – apontar o que é meu e o que é do outro. Não sei dizer o que sou eu e o que é uma absorção inconsciente do que me cerca, ou até onde vai a minha existência e em que ponto começa a existência desse outro que me olha. Não sei também argumentar se o que é do outro, a partir do momento que entra em contato comigo, passa também a ser meu, como um compartilhamento inevitável das nossas existências: eu dou um pouco, o outro dá um pouco, assim se erguem dois indivíduos coletivamente construídos, eu-e-o-outro ao mesmo tempo. 


Algum filósofo, sociólogo ou homem de repertório mediano já teve ter abordado todas essas questões, eu imagino, porque uma parte de mim lembra sempre que viver em sociedade exige esse tipo de troca, ao mesmo tempo que se pergunta se essa individualidade absoluta não seria apenas mais um mito capitalista que nos faz afundar em nós mesmos. Eu sou. Eu faço. Eu penso. Lá no fundo, sei que a divisão entre nós e os outros é natural para a humanidade enquanto espécie; que foi ela a responsável por parte da nossa sobrevivência, da mesma forma que foi ela a responsável por parte da nossa barbárie. Mas individualmente (e talvez more aqui o problema desse raciocínio, porque talvez seja impossível afastar e aproximar o singular e o coletivo dessa forma) ela me parece impossível de efetuar de verdade. Eu não sou eu sem o outro.


O olhar do outro me atravessa e me constrói, eu disse. Mas o olhar do outro também me (eu, Amanda) paralisa. E não conseguir riscar o traço que me separa daquele que me olha cria uma obrigação constante de seguir sendo olhada, de seguir existindo não apenas a partir desse olhar, mas sob ele. De alguma maneira, é uma perda absoluta da individualidade, mas não no sentido bonito de uma existência coletiva em harmonia; é no sentido da confusão que vai abrindo espaço conforme eu não consigo mais identificar em mim o que é meu.


(Faço um paralelo inexato: em Gilmore Girls existe esse episódio em que a Lorelai começa a duvidar de tudo que ela gosta ou não porque percebe que a personalidade dela foi moldada para ir de encontro ao que Emily, sua mãe, esperava que ela fizesse. Assim, se era errado (e crio a dicotomia pra facilitar o discurso, porque os casos têm lá as suas nuances) gostar de certos alimentos, usar certas roupas ou se relacionar com certas pessoas, então, para o seu espírito rebelde, todas aquelas coisas passavam a ser automaticamente certas. Esse processo de criação de uma personalidade por exclusão de elementos, no entanto, se dá de forma automática ao longo da sua vida, resultado de uma raiva que não se preocupa em analisar os objetos que alcança. Lorelai não se pergunta se ela efetivamente gosta daquilo tudo que consome ou faz; ela só assume que sim. É o questionar-se que gera a crise.)


Se tornar uma pessoa debaixo do olhar do outro significa não se tornar uma pessoa de verdade. Muito de quem eu sou foi construído, ao longo de 23 anos, a partir de uma série de outros olhares – não só os comuns, das figuras de autoridade presentes nos ambientes que eu frequentava, mas também de pequenos outros olhares que eu considerei sempre essenciais. Todos os outros me importavam, porque desde sempre o meu motor não foi virar um indivíduo, mas virar um indivíduo que pertencesse. Por motivos que me escapam, a lógica sempre foi invertida na minha cabeça: era necessário encaixar primeiro, entender quem eu era depois.


Ao longo deste ano, pensei várias vezes em como sou uma pessoa que sente medo. Cheguei a escrever sobre isso algumas vezes, embora sem nunca concluir de fato medo do quê, de modo que se tornou mais ou menos natural tentar identificar se a coisa me fazendo paralisar era só esse medo irracional de algo que eu não conheço. Se eu não envio esse artigo, é por medo? Se eu não participo dessa discussão, é por medo? Se eu não publico esse texto, gravo esse vídeo, mando essa mensagem: é medo? Em certa altura de maio, escrevi que “Desde que consigo me lembrar, estou sempre apavorada”, e se você folheia os meus diários não é difícil encontrar um parágrafo que comece com “Tenho medo que…”.


É impossível dizer com certeza que não ser medrosa teria feito maravilhas pela minha vida. Mas posso afirmar sem dúvidas que ser medrosa me impediu de efetivamente fazer coisas que eu queria muito, mas pareciam maiores do que eu seria capaz de aguentar. E esse medo de agir diante daquilo que me faz brilhar os olhos, ou de cultivar sonhos, ou de manifestar desejos, ou, enfim, de explorar essa individualidade que me permite ser uma pessoa (mais ou menos) única não se constrói sozinho – surge, percebi recentemente, a partir do olhar do outro.


Falei sobre a dificuldade que ando encontrando em escrever a dissertação na última consulta que tive com a psicóloga. Não é um problema de conteúdo, tentei explicar, mas de sentir que posso começar a escrever e não ficarão buracos; de confiar que aprendi esses temas, que li o que precisava ler, que não preciso continuar caçando novos teóricos e novas leituras; que vou conseguir organizar o texto de uma maneira consideravelmente fluida; que estou pronta para escrever. Não é um problema de conteúdo, mas de não saber se estou fazendo isso da forma certa; de sentir que desperdicei muito tempo; de imaginar se eu não deveria ser mais confiante, mais capaz, mais certeira. Ela respondeu: Me parece que você está escrevendo a dissertação com os olhos dos outros, e não com os seus. E então lembrei que, há alguns meses, quando tive um artigo rejeitado para uma revista na qual queria muito publicar, a pessoa responsável por escrever o meu parecer indicou, em mais de um momento, que era “muito frequente a substituição da minha voz crítica pela voz crítica das pessoas que eu citava”. 


A vida acadêmica é um caminho solitário, todo mundo sempre diz. E de fato o é, além de ser um caminho que exige muita autonomia, vontade de ir atrás, coragem de dar com a cara na porta. Essas foram coisas que fui aprendendo ao longo dos dois últimos anos, mais ou menos, e para as quais não estava tão preparada quando decidi engatar um mestrado na graduação. A solidão desse processo, no entanto, só tem se apresentado pra mim agora, nesse ano de isolamento global, em que as minhas trocas – e os momentos em que o olhar do outro atravessava a minha produção – não têm acontecido com nenhuma frequência. Ainda que eu siga tendo a minha rede de apoio, ainda que eu siga tendo reuniões e conversas bacanas, ninguém mais discute o Benjamin comigo às três da tarde de uma terça-feira; ninguém mais lê os meus rascunhos; ninguém mais diz que eu estou no caminho certo, que é assim mesmo, que com eles foi da mesma maneira.


Houve, de certa forma, um bloqueio desse olhar que, contudo, não aconteceu de forma absoluta. Eu ainda sigo questionando se o outro aprovaria os meus meios de escrever, pensar, publicar, organizar; se o outro sentiria orgulho disso aqui que eu estou tentando elaborar; se o outro não vai me achar boba, ingênua ou burra quando esse trabalho criar vida. Eu ainda sigo imaginando como se deu a produção dos meus colegas, das minhas orientadoras ou das pessoas que uso como exemplo. Eu ainda sigo pensando se, ao me afastar desse modelo que todo mundo parece ter seguido, não vou assinar um atestado de falha e, assim, cair na obsolescência. Preocupações grandes – e talvez bobas – demais para alguém que só tem 23 anos, eu sei. Mas, como disse antes, eu tenho sempre medo. 


Outros assuntos foram tema dessa percepção da importância que o olhar externo assume na minha vida. Em janeiro de 2020, e durante vários dos meses que se seguiram, um tópico frequente nas minhas conversas e nos meus desabafos pessoais era como a minha relação com o sexo e com qualquer tipo de prazer – essa coisa tão íntima, tão pessoal – parecia ser mediada pela aprovação do outro. Pode ser só um efeito de como o sexo passou a fazer parte da minha vida, pode ser uma forma que a minha cabeça encontrou de ser aceita e pertencer; eu não sei. De toda forma, também nisso o olhar do outro era mais incisivo do que o meu, e também nisso a minha individualidade – o que quer que signifique essa individualidade – se perdia diante desse atravessamento. Aconteceu com a minha forma de me relacionar dentro de casa. Aconteceu com o meu interesse por certos tipos de literatura. Aconteceu com a maneira como eu me visto. E por aí vai.


Essa enorme investigação não tem, até agora, uma conclusão – e talvez não venha a ter nunca. Descobrir que muito de mim é afetado pelo olhar do outro só gera mais dúvidas, porque é preciso entender, agora, como afastar esse olhar ou como não permitir que ele molde tanto assim a minha existência. Também é preciso descobrir como ser corajosa. E, por fim, é preciso descobrir como criar esse limite entre eu-e-o-outro sem que ele signifique o rompimento absoluto com esse outro, como muitas vezes parece ser o caminho. E enquanto tudo isso se estrutura, lentamente, dentro de mim, eu continuo aqui, tentando escrever e pensar e agir e construir, sempre sozinha e acompanhada ao mesmo tempo, nesse exercício diário de me descobrir. 


domingo, 19 de julho de 2020

Breves comentários sobre comprar uma cama

Quando criei este blog de mentirinha, parte de mim queria contribuir com o movimento de volta pra uma internet menos horrível e tentava acreditar que montar a minha barraca no Blogger outra vez, depois de tantos anos, bastaria pra me convencer de que as coisas poderiam, pelo menos em parte, ser como eram antes, quando eu tinha quinze anos e uma série de posts recentes nos meus blogs favoritos pra consumir ao longo da noite. Este lugar virtual nasceu pra ser, portanto, mais do que um simples espaço pra escrever e ponto; também funciona, pelo menos dentro da minha cabeça, como uma espécie de manifesto (insignificante, talvez) pelo retorno de uma internet como um espaço seguro pra gente simplesmente falar sobre coisas, sem a pressão de ter todas as respostas sobre elas.

Pensando nisso há um tempinho, desisti de ter um blog que não fosse assim tão pessoal (o que justifica o post de algumas semanas atrás) e aceitei que, às vezes, eu conseguiria ser engraçadinha e montar uma crônica divertida, mas, outras vezes, isso aqui seria só um grande diário do inacabável processo de estar no mundo e ser uma pessoa cada vez mais adulta, cada vez mais cheia de dúvidas e cada vez mais perdida no caos da nossa existência. Ter essa consciência é um pouco assustador porque, hoje, a internet não é o que era há oito anos atrás, mas, ao mesmo tempo, é o que faz essa experiência fazer sentido pra mim, que também estou aqui só tentando entender o que está acontecendo, em vez de estar aqui pra ser inteligente e afiada e eloquente e cheia de respostas.

O efeito mais imediato dessa reflexão toda foi a vontade crescente que senti de vir aqui falar sobre coisas consideravelmente bobas, mas que, dentro da minha realidade, representam marcos significativos nessa jornada que é me transformar numa pessoa. É pra isso que eu estou aqui, e é por isso que hoje a gente vai conversar sobre eu ter comprado uma cama na semana passada.


Talvez vocês não saibam, mas eu sou uma senhora idosa de noventa e seis anos e, como tal, tenho problemas de coluna. No início de 2020, decidi efetivamente cuidar um pouco melhor do meu corpo e comecei a fazer aulas de pilates duas vezes na semana, o que reduziu as minhas crises de lombar e melhorou a minha capacidade de fazer coisas normais, tipo empurrar uma móvel ou levantar uma caixa. Contudo, com a pandemia, esses exercícios foram suspensos por tempo indeterminado, e agora que estamos no sétimo mês do ano posso dizer que passei mais tempo sem o pilates do que com ele, ainda que tenha tentado manter um hábito (menos frequente, é óbvio) de alongamento e exercícios em casa.

Pra além do meu sedentarismo, é importante informar que durmo em uma cama de solteiro que meus pais compraram pra mim há alguns bons anos, cujo colchão é ainda mais antigo que a estrutura da cama em si. Como passei a maior parte da minha vida sem dividir essa cama com ninguém, o espaço era satisfatório e o colchão, suficiente para aguentar o meu peso, de modo que o sonho da cama de casal gostosa de filme era apenas isto: um sonho. Eu sabia que meus pais não poderiam ter essa espécie de gasto comigo por puro capricho e eu também achava que não fazia sentido fazer essa dívida eu mesma, então vivi com o mesmo colchão de solteiro por dez anos. E aí um dia a minha coluna não aguentou mais.

Talvez tenha sido um processo gradual ao qual eu não estava atenta, mas pareceu muito repentino: as minhas crises passaram a ser cada vez mais frequentes (a ponto de eu viver comprando Salompas e viver também com o pânico de que o excesso de anti-inflamatório fosse fazer o meu fígado sangrar em silêncio) e cada vez mais longas. Os três meses de pilates, por mais que ajudassem bastante, não eram milagrosos e não poderiam mesmo ter reduzido o problema a zero, principalmente depois que voltei a ser pouco ativa – não só não praticando exercícios tão frequentes, como também não caminhando mais as distâncias que costumava caminhar antes. Foi durante essas crises que comecei a perceber que o meu colchão não me fazia sentir melhor; na verdade, era o contrário: deitar me machucava muito mais do que ficar sentada ou de pé, e mais de uma vez me vi obrigada a migrar da cama para o chão apenas pra ficar efetivamente firme em uma superfície horizontal.

Juntei a dor frequente ao fato de que já faz dois anos que divido a cama com o meu namorado, que às vezes está aqui em casa, e concluí que, por mais delicioso que seja dormir agarradinho, seria melhor simplesmente investir o meu suado dinheirinho em uma cama maior, com um colchão novo. Por isso, quando os shoppings reabriram, coloquei duas máscaras no rosto e me dirigi até a loja mais próxima para adquirir um colchão que, honestamente, me fez ter vontade de chorar de alegria, de tão gostoso que era. (Depois voltei pra casa e tomei seis banhos e fiquei paranoica acreditando fielmente que estava contaminada e contaminando também toda a minha família. Mas divago.)

A cama ainda não chegou (chega no sábado! ai meu deus!), mas o processo de comprar algo tão caro mexeu muito comigo, que só recentemente cheguei a uma condição financeira realmente confortável para poder me proporcionar esse tipo de coisa. Embora tenha sido uma adolescente muito preocupada com autonomia e pague as minhas próprias contas (supérfluas, porque ainda moro com meus pais, o que é um detalhe importante) desde os dezoito anos, nunca fui exatamente responsável e grande parte das minhas empreitadas financeiras envolviam bastante desespero, parcelas mil e sufoco pra conseguir dar conta de tudo. No ano passado, quando virei bolsista do mestrado, comecei a levar a sério a ideia de ter uma reserva de emergência que me sustente por um tempo considerável e de investir o meu dinheiro em bens duráveis e que eu precise de fato, e desde então enfim fui capaz de me dar coisas sérias e relevantes, como essa cama ou um tablet para estudar direito, e coisas que eu simplesmente queria há muitos anos, como o ingresso pra ver o McFly.

Ser capaz de pagar caro pelas coisas que eu quero é uma sensação esquisita. Por um lado, sei que não estou rica, não posso me dar todos os mimos do mundo e o meu dinheiro não vai cair na minha conta pra sempre (a bolsa tem um tempo específico de duração, afinal); por outro lado, é como se eu estivesse um pouquinho mais perto de ser a adulta responsável por mim mesma que quero ser um dia. Fico dividida entre ter pequenas crises de pânico por estar movimentando quantias relativamente altas (pra mim) e sorrir abobada olhando pras coisas e pensando "puta merda, eu que me dei", o que é um sentimento engraçado e confuso, perdido nesse lugar entre uma criança contente e uma adulta olhando a fatura do cartão.

Muito dessa estranheza vem do fato de que sou uma pessoa da classe média que só passou a ter condições financeiras verdadeiramente boas nos últimos cinco ou seis anos, cujos pais passaram a vida inteira trabalhando muitas horas e em muitos empregos e cuja prioridade sempre foi o absolutamente essencial pra que eu tivesse acesso a algum conforto. É verdade que cresci com televisão e internet, mas também cresci sabendo do quê era preciso abdicar para ter luxos como esses, e, mesmo depois que viajar para fora do país, comprar um carro zero ou ter uma piscina em casa pararam de ser consideradas coisas fora da minha realidade, o significado de poder pagar por elas já estava muito marcado em mim, de modo que ainda olho pra tudo isso com estranheza. 

Ser, hoje, a responsável financeira pela reforma do meu quarto, pelos meus materiais de pesquisa ou pela minha cama é resultado de uma série de privilégios, sim, mas também é a prova de que os sacrifícios da minha família tiveram um resultado real, da mesma forma que o meu trabalho – efetivo ou acadêmico – e a minha responsabilidade tiveram um resultado real. Ele é visível, porque eu compro coisas materiais, mas ele também pesa no meu peito e me faz ter uma crise de choro ao poder proporcionar pra mim e pra minha melhor amiga a oportunidade de ver a banda que nos uniu ao vivo, juntas, quase uma década depois do último show deles no meu país. E lidar com esse resultado é gostoso, mas também é estranho, como se essa posição de poder aquisitivo pudesse ser tirada de mim a qualquer momento, um sentimento que eu imagino ser comum a todo mundo que não nasce nesse lugar e, consequentemente, nunca se acostuma de verdade com ele.

Em algum momento entre a loja de colchões e o meu banho em álcool 70%, a minha ficha começou a cair e eu não sabia exatamente o que fazer com os sentimentos que estavam surgindo. Porra, eu comprei uma cama. Eu. Sozinha. Uma cama. Um colchão gostoso. Roupas de cama. Comprei uma cama que vai entrar num quarto que vai ser reformado com o meu dinheiro. Sozinha. Me dando coisas. Coisas caras. Coisas caras e legais e que eu preciso. À vista. Caralho.

Parece (e provavelmente é) idiota, mas, quando começo a pensar sobre isso, só consigo perceber que é uma etapa muito doida de virar adulta, de ter as minhas coisas, de conquistar independência. E às vezes esse processo parece longo e distante, mas coisas como essas, bobas e triviais, me fazem lembrar que ele não está tão distante assim. É fácil me sentir perdida, atrasada, confusa e pequena diante do mundo e das pessoas que já conquistaram tão mais, mas também foi fácil, pelo menos dessa vez, me enxergar caminhando na direção certa. Ainda não é um aluguel, a prestação de um apartamento, todas as contas de uma casa, mas hoje eu estou muito mais perto desses lugares do que estava há dois anos, e isso, no meu universo particular, significa muito.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Do lado de fora

Não lembro direito da minha infância, mas lembro de não ter muitos problemas em ser comunicativa. Fui uma criança emburrada pros adultos que conviviam comigo, mas também fui faladeira e gostava de ser o centro das atenções, tanto em casa, quanto no meu grupinho de amigas. Além disso, fui terrivelmente influenciada pelas personalidades erradas nos filmes infantis, de modo que não conseguia enxergar o enorme abismo social e financeiro que me impedia de efetivamente levar a vida de todas as patricinhas da televisão e tentava ser como elas mesmo assim – o que, é claro, não trouxe bons resultados.

Durante aquela fase horrível de transição entre o universo infantil e o universo assertivo e "adulto" dos adolescentes, aconteceu também uma transição espacial (mudei pra outra escola) e, por causa dela, meu lado comunicativo perdeu espaço pro meu lado ansioso. (Acho, na verdade, que as duas coisas sempre estiveram muito atreladas, tanto que até hoje costumo falar muito quando tô em situações que mexem com a minha ansiedade. Mas isso é outro assunto.) Foi por volta dessa época que aprendi a ser simpática com todo mundo e a conseguir ter relações duradouras, mas superficiais, sempre com um custo energético muito grande, a ponto de ficar fisicamente exausta depois da escola ou de uma festinha qualquer.

Hoje, continuo sendo alguém que se comunica com certa facilidade, apesar da exaustão que isso gera depois. Ainda sou boa conhecendo pessoas e fazendo perguntas que permitam uma conversa relativamente longa, embora meus relacionamentos mais íntimos sejam reduzidos e eu não tenha, no fim das contas, tantos amigos assim. É muito raro não me dar bem com ninguém ou ficar excluída num canto, mas isso é efeito de muitos anos efetivamente sendo a pessoa que fica sozinha nas festas, ou que puxa um livro de dentro da bolsa, ou que se esconde no closet da melhor amiga pra dar uma choradinha porque quer ir embora. 

Não sei quando foi que a chavinha girou na minha cabeça e eu aprendi como equilibrar os dois lados. Não sei quando foi que criei tanto mecanismos pra conseguir existir socialmente, quanto uma rotina que me permite sumir por um tempo sem que as pessoas notem e fiquem preocupadas, mas isso aconteceu. E aí veio a quarentena, e isso está indo por água abaixo.


No início desse período, tentei o máximo que pude continuar mantendo meus contatos, falando com as minhas pessoas, trocando ideias na internet, consumindo conteúdos que me permitissem continuar "ativa" de alguma maneira. Isso me desgastou muito mais rápido do que eu imaginei que desgastaria e depois de um mês eu já não queria fazer videochamadas, nem jogar Imagem e Ação on-line, nem falar com ninguém sobre nada que não fosse estritamente necessário. Voltei a ler (quem diria) e voltei a escrever com frequência (nem eu diria), mas também voltou a sensação de conforto em estar sozinha e a sensação (pior ainda) de que a minha presença incomoda.

Sou ruim fazendo amigos na internet porque nunca sei como ultrapassar a barreira entre achar alguém muito legal e efetivamente me aproximar desse alguém a ponto de conversar sobre a minha vida pessoal. Tenho casos pontuais em que isso deu certo e me permitiu conhecer pessoas maravilhosas, mas sinto que, à exceção das relações que até hoje me pergunto se forcei a barra pra criar, em geral construo, como sempre, boas amizades superficiais, com pessoas que admiro e gosto de ter por perto, mas que às vezes me pergunto se estou enchendo a paciência ou se falam comigo por outro motivo qualquer que não é gostar de mim de verdade.

Agora que todas as minhas relações são virtuais, sinto falta do contato humano que me fazia sentir alguma segurança e dos encontros casuais que me permitiam estar acompanhada sem sentir que estava forçando essa companhia de alguma forma. A consequência de ter que fazer tudo pela internet, mesmo com as pessoas que eu conheço e convivia, é que sinto que estou criando uma imposição muito real da minha presença – um número xis de notificações que viram um lembrete – e que efetivamente incomodo, o que me faz ficar cada vez mais quieta e, consequentemente, cada vez mais confortável dentro do meu silêncio e menos propícia a abandoná-lo.

Assim, tenho trocado menos mensagens a cada dia e sequer lembro quando foi a última vez que falei com alguém que não era do meu grupo de estudos por vídeo. A vontade de deletar todas as redes sociais cresceu exponencialmente nas últimas semanas e até tento encontrar outras justificativas que não sejam apenas uma vontade absurda de ficar sozinha pra "correr menos risco", mas também evito ler os livros sobre o assunto que comprei porque sei que qualquer empurrão basta pra que eu apague tudo de verdade. 

Esse silêncio todo – que eu busco (in)conscientemente – faz crescer a sensação de que estou fora de situações importantes e conversas bacanas das pessoas que gosto, ou que estou sendo uma amiga ruim, e isso tudo contribui pra que cresça a certeza de que é melhor me manter fora dos meus círculos sociais e em silêncio, sob o risco de forçar as pessoas a perceber que eu não estava realmente ali, fazendo parte das coisas, e então que não sou alguém que está incluída de fato. É a mesma coisa que fazia quando ficava excluída da rodinha aos quinze anos – sentar em silêncio e rir quando todo mundo ri, mas não participar de fato, pensando sempre que, se eu ficar quietinha, talvez ninguém perceba e talvez essa sensação de não pertencer ao grupo passe. Mas não passa.

No fim das contas, é sempre sobre precisar pertencer, um tema que ia e voltava na minha terapia e que eu sempre brinco que é culpa de ser leonina de lua em leão, mas que, lá no fundo, atravessa os meus vinte e poucos anos de existência com uma profundidade assustadora. A quarentena tem sido um lembrete constante desse medo de estar do lado de fora das coisas que importam e da vida das pessoas que gosto, mas também tem servido pra que ele se intensifique. Então, nos dias bons, eu arrisco um comentário ou dois, mas imediatamente me arrependo de ter falado alguma coisa; nos dias ruins, fico quietinha vendo todo mundo rir, torcendo em silêncio pra que eu seja incluída na piada mas não fazendo nenhum esforço pra isso porque não quero denunciar a minha presença e correr o risco dela não ser assim tão bem-vinda.

Quando isso tudo acabar, vai ser um processo chato me habituar outra vez ao cansaço que sinto depois de socializações simples e à ansiedade de ter que ir aos lugares, resolver coisas, lidar com pessoas. Mas acho que o processo pior será ter que me convencer outra vez de que posso ocupar esses lugares e posso falar com essas pessoas e isso não significa que estou sendo inconveniente ou chata. Foi ruim passar os últimos anos repetindo pra mim mesma que eu pertenço ao espaço que lentamente construí, com pessoas e referências que me completam e me fazem sentir mais eu mesma, e com a quarentena é fácil esquecer não só que esse espaço existe, mas quem eu sou dentro dele. No novo normal, vai ser ruim de novo. Mas pelo menos não vai ser a primeira vez.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Este não é um blog de verdade.

A quarentena fez todo mundo voltar a escrever, inclusive eu. Mesmo depois de dizer que não ia mais escrever na internet; mesmo depois de passear pelos meus blogs antigos e perceber que é por conta daquele tipo de conteúdo que eu não escrevo mais na internet; mesmo depois de ensaiar mandar uma newsletter, e então outra, e então criar uma inteira do zero, aqui estou eu: em um blog. Do Blogger, pelo amor de Deus. Com um template arrumadinho, a cara cheia de óleo de peroba e um texto prestes a ser publicado. I have no shame.

A verdade é que, desde que o mundo acabou e a gente passou a viver esse estado de exceção que é a quarentena e o Brasil de 2020, eu tenho escrito bem mais do que costumava escrever. O que, é claro, é a forma que encontrei de, ao mesmo tempo, ignorar a minha dissertação, sentir que estou sendo produtiva e tentar organizar o caos que anda a minha cabeça. Até ficção — coisa que não era do meu interesse escrever mais há pelo menos uns quatro anos — eu escrevi nesses últimos meses. Tenho falhado em muitas coisas, mas tenho escrito sobre falhar nessas coisas, o que é, de uma forma esquisita, um sucesso pessoal. Daí a necessidade de criar o blog.

A ideia já montava e desmontava acampamento na minha cabeça há alguns meses e muita gente que eu conheço efetivamente se dispôs a voltar a esta plataforma só por diversão, só pra lembrar de quando a internet era boa e não afetava diretamente o curso da nossa democracia. Por minha vez, sempre fui melhor escrevendo do que falando, de modo que, se fosse pra criar alguma coisa, era melhor um blog que um canal no youtube — ou um podcast. (Já pensou?) A dúvida que ficava era se eu devia só voltar à newsletter como quem não quer nada ou fingir que nunca falei sobre parar de escrever e criar um blog do zero. Preferi a segunda alternativa, que me pareceu menos invasiva e que me deixou menos ansiosa — odeio ver o número de inscritos na newsletter descer e ninguém me deu tchau durante todos esses meses de silêncio, imagina se eu envio um texto e alguém vai embora, que tristeza? —, então aqui estamos.

Honestamente, este sequer é um blog de verdade (daí o nome — muito original, como costumam ser todos os meus nomes de blog) e eu não sei por quanto tempo vou ficar por aqui. É provável que, se a quarentena — ou o Brasil — acabar amanhã, eu finja que nada disso nunca aconteceu. Até lá, porém, seguirei construindo a ideia de um blog, mas não um blog de fato, e vendo no que isso dá. De novo, ainda e mais uma vez.

Saudade de mundo

Dia desses me descobri com uma inexplicável saudade de andar de ônibus. Das muitas coisas que a quarentena foi tirando de mim, essa talvez s...